A História

17 de junho de 2016

A seguir, o Prólogo do livro:

Num futuro distante, a cerca de um milhão de anos a frente do nosso tempo, o ser humano há muitos séculos, havia dado o grande passo de sua existência partindo em busca de sua sobrevivência. Deixando a Terra, a espécie humana concretizou o projeto de colonizar Marte antes de extinguir-se completamente. Diferente de outros períodos do planeta azul, quando as espécies que reinavam foram extintas vítimas de violentos cataclismos, a espécie humana alcançou a capacidade de prever, preparar-se e fugir a tempo.

Marte recebeu o homem como tantas vezes o homem temeu receber alienígenas: para explorar e salvar a própria espécie. E embora o planeta vermelho não contasse com tropas que o defendessem contra o inimigo, as condições atmosféricas eram a grande arma com que o Planeta podia repelir seus invasores.

Chuvas de meteoros constantes e difíceis de detectar açoitavam o terreno e impediam, por meses, qualquer atividade externa. Terríveis furacões destruíam o que estava sendo edificado e levavam muitas vidas. Foram necessárias muitas gerações de cientistas preparando as condições básicas para receber os primeiros habitantes civis.

As primeiras famílias foram escolhidas criteriosamente a partir de processos seletivos que analisavam a origem étnica, formação física, intelectual e idade limite. Geralmente eram escolhidos casais jovens, sem filhos, recém formados em cursos universitários que os preparavam previamente para o projeto. Enfim, uma seleta casta foi sendo destacada para a colonização do novo planeta. E, apesar de todas as dificuldades, o projeto de colonização foi alcançando êxito, lento mas contínuo, e foram necessárias muitas gerações de imigrantes civis, para começar os primeiros ares de colonização efetiva de Marte.

No entanto a vida era muito difícil dadas as condições meteorológicas, extremamente severas, comparadas à vida na Terra, e muitos séculos se passaram até que o ambiente externo do planeta cedesse aos inúmeros processos de aquecimento, com chuvas torrenciais provocadas artificialmente gerando acúmulo de água nas antigas bacias e leitos de rios e oceanos. E o homem suportou a mais difícil de suas aventuras e povoou Marte.
Mas quando o ser humano já habitava o planeta Marte e seus descendentes praticamente desconheciam suas origens na Terra, já se fazia necessário encontrar novas alternativas para abrigar a população sempre crescente, que exauria os poucos recursos do planeta. Condições climáticas ainda extremas e constantes crises de abastecimento de alimentos, resultantes de mudanças climáticas repentinas eram apenas alguns dos muitos problemas que Marte ainda oferecia, pois, ao contrário da Terra, onde as condições naturais forneciam todas as riquezas que o homem necessitava para viver a pleno, no planeta vermelho, tais condições só se faziam favoráveis a partir da intervenção humana. Assim, após muitos séculos de sua chegada ao novo planeta, o homem já sentia a necessidade de reinventar-se e, quem sabe, encontrar novos portos na galáxia.

A tecnologia de navegação espacial ia muito além do que hoje podemos conceber mas seguia a evolução dominada pelo homem, portanto, um salto para fora da galáxia ainda era um passo intransponível. Dessa forma a decisão de explorar novos portos para as futuras gerações se arrastava por décadas, em incontáveis congressos e acaloradas discussões que acabavam em nada. Interesses dos mais variados sempre preponderavam para adiar qualquer decisão que estivesse às portas de ser aprovada.

Além disso, dada a forma de colonização do Planeta, a organização política e social de Marte centralizou o poder global num único órgão de proteção, legislação e gerenciamento, e não oferecia alternativas. As decisões eram tomadas sem a participação da população. Dirigentes eram escolhidos internamente, e rapidamente uma casta política, apoiada por um sistema religioso bem sintonizado com o poder, conduziu a administração do novo planeta de acordo com seus interesses mais específicos e negligenciou outros, legando, a cada geração, mais um passo rumo ao esgotamento do planeta e sem uma solução viável.

Nossos descendentes, após muitas gerações, haviam evoluído fisicamente, adaptando-se às condições do planeta e o pouco que restou das memórias do que foram e como viveram seus antepassados, num outro local do sistema solar, estava esquecido em setores remotos das bibliotecas do governo central.
Havia naquele tempo a consciência comum, ensinada oficialmente, de que as origens humanas estavam ali mesmo, escritas nas mais antigas camadas geológicas do Planeta Vermelho. Mesmo as correntes ideológicas que punham em dúvida a história oficial, muito pouco, ou praticamente nada tinham no que apoiar seus argumentos, e os mais fervorosos adeptos das teorias de que um êxodo de outro planeta teria sido a origem de sua espécie, não encontravam provas para eles mesmos entenderem em que momento e o porquê da história ter sido adequada a uma verdade ficcional.

No entanto, dez mil séculos à frente, depois de fugirem do colapso da Terra, estes novos humanos viviam numa rotina muito semelhante a de seus ancestrais e começavam uma perigosa repetição da história que se ignora, reincidindo nos mesmos erros que acabaram expulsando seus “tataravós” de seu paraíso natal.